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Informal communications from Anvisa create legal uncertainty in the health sector

It is necessary to discuss the limits, risks and consequences of an informal, parallel system for publicizing administrative acts of regulatory bodies. Over the past three years, Anvisa has intensified the dissemination of acts, decisions and precautionary measures through various channels, including its website and the personal social‑media profiles of its staff. This practice has shifted administrative publicity into an unofficial environment, blurring the line between official and individual statements, and the most serious result is the creation of a parallel communication and media plan that operates outside the formal procedures that structure administrative publicity.

The publicity of administrative acts defines how such an act formally enters the legal sphere. When information about acts and decisions is circulated through unofficial channels, the public is confronted with different versions, without regard for the fact that the act may be only initial, subject to adversarial proceedings, review (ex officio or otherwise) and subsequent stages of a typical administrative process.

This challenges the validity, or legality, of the publicity. The problem becomes more evident in the case of precautionary measures, as we have frequently observed. Acts that order suspension of marketing, precautionary interdiction and product recalls are provisional measures, subject to intense adversarial proceedings, technical debate and appeals. Nevertheless, they are publicized by Anvisa, on its website, and on staff members’ social networks in a way that appears to present final decisions and leads the public to conclusions that often do not reflect the procedural stage of the act. This distorts the logic of the sanitary administrative process, which presupposes deep technical analysis and debate, including the possibility of decision review based on legal or technical arguments.

The Federal Constitution, Law No. 9.782/1999 (which establishes Anvisa and contains specific provisions, for example, on the suspensive effect of appeals and decision‑making instances), Law No. 9.784/1999 (which regulates federal administrative procedure), as well as Resolution RDC No. 266/2019, are, in brief, the set of norms that should guide the discussion and, above all, the formalization of acts within the agency. Even to comply with the principle of publicity, there are concrete parameters that the agency must observe, such as the duty‑and‑power to officially disclose decisions through appropriate channels and formats.

Disregarding these channels, which are in fact genuine safeguards of the legitimacy and legality of administrative acts, leads to deleterious consequences. It undermines the rule of law and legal certainty, creating information asymmetry and prompting premature interpretations of acts that remain subject to adversarial proceedings and review. The circulation of content through unofficial channels creates a parallel communication and media environment, without procedural controls, which can misrepresent the procedural stage of measures and cause harm to those who comply with regulatory and supervisory rules — the regulated sector.

But there is an even more serious point. Anvisa has specific rules governing the adoption, form and scope of communications and media plans in precautionary actions and product recalls. For example, there are specific rules for communications and media plans in food recalls (Resolution RDC No. 655/2022) and in medicine recalls (Resolution RDC No. 625/2022). The teleology of these norms is crucial: they were created to calibrate communication according to risk and, above all, to establish objective and technical criteria for disclosure.

A brief analysis of these norms already reveals the issue: when a company is subject to a precautionary product‑recall measure, it cannot choose how to communicate as it pleases. This is strictly regulated informational content that must receive prior approval from Anvisa, which may even suggest changes to its content. The rule values consistency of information, which — as a general rule — must be concise, prioritizing clarity and objectivity and avoiding technical terms or ambiguous or insufficient information for consumer understanding.

These are therefore formal procedures established in the legislation itself. However, publicity of acts and decisions through unofficial channels effectively creates an informal, parallel communication and media plan, implemented unilaterally by the agency or its staff and completely outside the rules provided by law for measures of this nature. In other words, this parallel diffusion mechanism (on the agency’s sites or on staff members’ unofficial profiles) operates at the margins of current norms and technical parameters, contravening the logic of the public administration’s legal regime and distorting formal procedures provided for in sanitary legislation.

The consequences are worrying. The normative system is violated, the risk of misinterpretation increases, and companies are exposed before they can exercise their right to adversarial proceedings, suffering disproportionate reputational damage. Investors and consumers operate in an environment of regulatory noise and extreme uncertainty, and ultimately Anvisa’s institutional credibility is also inevitably affected.

The integrity of the regulatory process depends on practices that respect normative limits and preserve the formal acts typical of the public‑law regime. Anvisa has built technical recognition over many years, and that recognition is tied to respect for formal procedures and qualified technical debate. Informal publicity, on the contrary, weakens these elements and fails to observe the constitutional and legal limits of its function. Preserving institutional credibility requires a return to a narrowly framed model of action, within the bounds of legality and the formalities that characterize administrative acts and decisions. Parallel communication, rather than increasing transparency, introduces uncertainties that undermine the regulated community’s trust and the stability of the regulatory environment.

It is necessary to find a balance that broadens public access to qualified information without compromising the formal structure of administrative processes or causing reputational harm disproportionate to the regulated sector.

Comunicação informal da Anvisa gera insegurança jurídica no setor de saúde

Será preciso discutir os limites, os riscos e as consequências de um sistema informal e paralelo de publicidade de atos administrativos de órgãos reguladores. Nos últimos três anos, a Anvisa intensificou a divulgação de atos, decisões e medidas cautelares por diferentes meios, incluindo seu website e perfis pessoais de seus servidores em redes sociais. Essa prática tem deslocado a publicidade administrativa para um ambiente extraoficial, sem distinção entre manifestação oficial e individual, cujo resultado mais grave é a criação de um sistema paralelo de comunicação e de plano de mídia que percorre à margem dos procedimentos formais que estruturam a publicidade administrativa.

A publicidade dos atos administrativos define o modo pelo qual esse ato ingressa formalmente no mundo jurídico. Quando se promove a circulação de informações sobre atos e decisões por canais extraoficiais, o público passa a lidar com versões diferentes, desconsiderando-se que se trata de um ato apenas inicial, sujeito a contraditório, revisão (de ofício ou não) e etapas subsequentes de um típico processo administrativo.

Isso desafia a validade, ou legalidade, da publicidade. O problema se torna mais evidente no caso de medidas cautelares, como temos visto ocorrer frequentemente. Atos que determinam a suspensão de comercialização, interdição cautelar e recolhimento de produtos são atos provisórios, sujeitos a intenso contraditório, debate técnico e recursos. Apesar disso, são divulgados pela Anvisa, seu website, e em redes sociais de servidores aparentando decisões finais e induzindo o público a conclusões que, muitas vezes, não correspondem nem ao estágio processual do ato. Isso distorce a lógica do processo administrativo sanitário, que pressupõe análise e debate técnicos bastante profundos, inclusive com a possibilidade de revisão de decisões, seja em razão de argumentos jurídicos, seja em razão de argumentos técnicos.

A Constituição Federal, a Lei nº 9.782/1999 (que cria a Anvisa e traz disposições específicas, por exemplo, sobre efeito suspensivo de recursos e instâncias de decisão), a Lei nº 9.784/1999 (que regula o processo administrativo federal), bem como a Resolução RDC nº 266/2019 são, numa breve síntese, o conjunto de normas que devem pautar a discussão e, sobretudo, a formalização de atos no âmbito da agência. Mesmo para cumprir o princípio da publicidade, há parâmetros concretos que devem ser observados pela agência, a exemplo do poder-dever de divulgar oficialmente as decisões em meios e formatos próprios a este fim.

Desconsiderar esses caminhos, que são, na verdade, autênticos balizadores da legitimidade e legalidade dos atos administrativos, leva a consequências deletérias. Isso compromete o Direito e a segurança jurídica, gerando assimetria na informação e induzindo interpretações prematuras sobre atos ainda sujeitos a contraditório e revisão. A circulação de conteúdos por canais extraoficiais cria um ambiente de comunicação paralelo ao oficial, sem controle procedimental, que pode distorcer o estágio processual das medidas, além de acarretar danos àqueles que se submetem às regras de regulação e fiscalização – o setor econômico.

Mas há um ponto ainda mais grave. A Anvisa tem regras específicas regulando a adoção, a forma e a extensão de comunicados e planos de mídia em ações de natureza cautelar e recolhimento de produtos. Há, por exemplo, regras específicas para comunicados e planos de mídia em recall de alimentos (Resolução RDC nº 655/20022) e em recall de medicamentos (Resolução RDC nº 625/2022). A teleologia dessas normas é um ponto crucial: essas regras foram criadas para calibrar a comunicação ao risco, e, sobretudo, estabelecer critérios objetivos e técnicos para a sua divulgação.

Uma breve análise dessas normas já revela o ponto em questão: a empresa, quando submetida a uma medida cautelar de recolhimento de produtos, não pode escolher fazê-lo como bem entender. Trata-se de um conteúdo informacional absolutamente regulado, que é submetido à anuência prévia da Anvisa, que pode, inclusive, sugerir alterações no seu conteúdo. Aliás, a norma preza pela consistência da informação, que – por regra - deve ser concisa, primando pela clareza e objetividade, evitando o uso de termos técnicos, informações ambíguas ou insuficientes ao entendimento do consumidor.

São, portanto, procedimentos formais estabelecidos na própria legislação. Contudo, a publicidade de atos e decisões por canais extraoficiais cria, na prática, um plano comunicação e de mídia informais e paralelos, sem qualquer critério, realizado unilateralmente pela agência ou seus servidores, e completamente fora das regras previstas na legislação para medidas dessa natureza. Em outras palavras, esse mecanismo de difusão paralela de informações (em sites da agência ou perfis extraoficiais de seus servidores) opera à margem das normas vigentes e dos parâmetros técnicos, contrariando a lógica do regime jurídico da Administração Pública e desfigurando procedimentos formais previstos na legislação sanitária.

As consequências preocupam. O sistema normativo é violado, aumenta-se o risco de interpretações equivocadas e as empresas são expostas antes mesmo de exercer o seu direito ao contraditório, passando a suportar danos reputacionais desmedidos. Investidores e consumidores passam a operar em ambiente de ruído regulatório e de extrema insegurança, e, no final, a credibilidade institucional da Anvisa é também fatalmente impactada.

A integridade do processo regulatório depende de práticas que respeitem limites normativos e preservem atos formais típicos do regime jurídico público. A Anvisa construiu reconhecimento técnico ao longo de muitos anos, e esse reconhecimento está associado ao respeito de procedimentos formais e ao debate técnico qualificado. A publicidade informal, ao contrário, fragiliza esses elementos, deixando-se de cumprir os limites constitucionais e legais de sua função. A preservação da credibilidade institucional exige o retorno a um modelo de atuação estreita, no limite da legalidade e das formalidades que revestem os atos e as decisões de natureza administrativa. A comunicação paralela, ao invés de ampliar a transparência, introduz incertezas que comprometem a confiança dos regulados e a estabilidade do ambiente regulatório.

É preciso encontrar o ponto de equilíbrio que permita ampliar o acesso da população a informações qualificadas, sem comprometer a estrutura formal dos processos administrativos, nem gerar danos reputacionais desproporcionais a o setor regulado.

Fonte: https://lexlegal.com.br/comunicacao-informal-da-anvisa-gera-inseguranca-juridica-no-setor-de-saude/